O salto da janela do décimo quinto andar de um prédio não poderia nunca ter sido melhor. O céu que rodeava minha mente era tão leve e profundo que a queda parecia nunca ter fim. Minutos antes, o suave som destorcido da Fender jaguar 1969 já previa a intensidade do momento. Até parecia que iria pular de cima de uma linda montanha verde em direção a um mar azul, e logo depois, rever a cena na minha mente toda em preto e branco. Se o pouco silêncio que procedeu ao fato pudesse descrever um terço do vazio que eram minhas tardes de domingo, solitárias e completamente degradadas pelo cinza chumbo que coloria aquela cidade, talvez você entendesses o quanto é difícil suportar uma inquietação interna, causada pela ausência do doce fio de nylon vermelho que sempre acabaria ficando em frente ao sofá.
Se pelo menos eu pudesse jogar esse jogo de outra forma, com outras regras, quem sabe eu poderia colorir a obscura metrópole. Usando o tom suave das caminhadas nas virtuosas manhãs ensolaradas, ou com o vinho tinto suave chileno de todas as noites, que normalmente viria acompanhado de risadas entorpecidas por uma fatal afinidade. Afinidade tão rebelde que ofuscaria qualquer brilho, que não fosse tão charmoso quanto o da décima sexta estrela, contada no céu no mínimo uma vez por semana, umas 2 horas antes do amanhecer.
Cada dia que eu me senti traído pelos meus próprios sonhos foi justificado naquela queda. Um animal com a alma mais selvagem do universo, sufocado, dessa vez pelo cinza prata das grades de seu cativeiro natal, teria explosivamente feito a mesma coisa. Minha alma sempre foi imprevisível, no entanto, de vez em quando a voz que eu ouvia vindo de dentro de mim cantava sempre o mesmo coro, ensaiado por tudo aquilo que se passava nos momentos difíceis: “Você ainda é jovem, liberte-se!". E eu ingênuo, nunca imaginei que tal alívio fosse ser tão imediato, pois a angustia de não ter a essência do remédio de minha própria cura, parecia-me levar a crer que até mesmo um golpe tão profundo em tudo não iria surtir efeito. E não foi isso que aconteceu. Nos cinco metros finais do meu curto e delirante caminho até a litosfera, eu vi a crosta terrestre se transformar num lindo mar algodão, fabricado pela mão de uma linda menina operária no litoral Chinês. Depois disso acho que perdi minha consciência, que provavelmente desapareceu devido ao alto nível de beta-endorfina que meu organismo produziu.
Naquele princípio de segunda feira, levantei-me, tomei café e olhei duas vezes fixamente pro meu cachorro, que me observava como se a única coisa que importasse no planeta fosse a torrada amanteigada que estava em cima da mesa. Logo parei e disse:
- Seu safado filho da puta, tu vai se engasgar com uma tonelada de nylon vermelho que tu ainda vai farejar por esse apartamento!
Beijei sua cabeça fedorenta, bati a porta do apartamento e comecei a caminhar, sentindo que realmente ainda era jovem, e que não só a coloração daquele aglomerado urbano, mas como a do mundo todo, poderia mudar a qualquer momento, como a mesma fatalidade do destino que escureceu tudo um dia. De repente, parei no meio da rua de forma muito doentia e abstrata, devido à imagem que encontrei se movimentando e parando a cada milésimo de segundo que se aproximava. O susto foi tanto que quase voltei a fita de tudo que tinha acontecido nos últimos 5 dias. Depois de recuperar minha consciência, sorri, e disse pra aquela miragem vinda do lugar mais profundo do universo:
- a vida não vale apena... Um sopro e um grito... É realmente a porta.
(muito louco né, nem sei de onde veio tudo isso... Inconsistente como meu humor.)
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